Biografia
Martinho nasce por volta de 316 em Sabária, na Panónia (atual Hungria), numa família pagã. Filho de um oficial do exército romano, recebe um nome que evoca Marte, o deus da guerra — mas viria a tornar-se, como ele próprio dizia, «soldado de Cristo, soldado da paz». É educado em Pavia, na alta Itália.
Ainda menino inscreve-se no catecumenado e, aos quinze anos, é incorporado na carreira militar. Já então se distinguia pela caridade: tratava o seu servo como igual, partilhando com ele a mesa e o serviço.
Soldado à força
Entre os quinze e os dezoito anos, ainda catecúmeno, ocorre às portas de Amiens o episódio mais célebre da sua vida. Num inverno rigoroso, encontrando um pobre nu e enregelado, Martinho corta ao meio a sua capa militar e cobre-o. Na noite seguinte vê em sonhos o próprio Cristo envolto naquela meia-capa.
O que fizestes ao mais pequenino dos meus irmãos, a Mim o fizestes.Mateus 25, 40
É baptizado pouco depois, em Amiens, por volta de 339. Quando quis deixar as armas — «sou soldado de Cristo, não me é permitido lutar» — foi acusado de cobardia, à beira de um combate contra os germanos. Ofereceu-se então para ir à frente da legião apenas com o estandarte da Cruz, desarmado; na manhã seguinte, o inimigo pediu a paz. Por isso é tido como patrono dos objetores de consciência.
Monge por vontade
Livre da milícia, Martinho entrega-se à vida monástica. Junta-se a Santo Hilário de Poitiers, que muito admirava, e funda em Ligugé o mais antigo mosteiro da Gália — ao mesmo tempo refúgio, escola de fé e centro de evangelização dos povos rurais. Foi o primeiro grande organizador do monaquismo no Ocidente.
Bispo de Tours
Em 370-371, contra a sua vontade, é aclamado bispo de Tours. Conta-se que, escondendo-se para fugir à nomeação, foi denunciado pelo grasnar de um ganso — animal que desde então o acompanha na iconografia. Funda o mosteiro de Marmoutier, de onde sairiam missionários como São Patrício, evangelizador da Irlanda.
Bispo-monge, percorre incansavelmente os campos da Gália: funda igrejas, combate os cultos pagãos e defende os pobres, sem temer enfrentar os poderosos. A sua influência chegou da Irlanda à Hispânia romana — pelo seu ardor missionário, é por vezes apontado, ao lado de São Bento, como co-padroeiro da Europa.
Morte, culto e iconografia
A morte surpreende-o em Candes, numa viagem para reconciliar o clero local. Pediu que o deixassem olhar para o céu e morreu a 8 de novembro de 397, com cerca de oitenta anos. É sepultado em Tours a 11 de Novembro — data que se torna a sua festa litúrgica.
Sobre o seu túmulo ergue-se uma basílica, logo lugar de peregrinação. Os reis francos guardavam como relíquia a sua capa (em latim cappella); o seu guardião era o «capelão» e o lugar onde se conservava, a «capela» — palavras que daí nos vêm.
Representa-se São Martinho a cavalo, partilhando a capa com o pobre. Com São Silvestre, foi dos primeiros santos não mártires venerados; a sua Vita, escrita por Sulpício Severo, foi um manual de espiritualidade na Idade Média. Em Portugal, a sua festa coincide com o «São Martinho» das castanhas e do vinho novo — sinais de partilha que mantêm vivo o gesto da capa.
São Martinho em Guifões
A Paróquia de Guifões celebra o seu padroeiro no dia litúrgico de 11 de Novembro, com uma Missa Solene. Organiza-se uma procissão noturna com o andor do padroeiro, num dia próximo à data litúrgica, que conclui com a bênção e um Magusto Paroquial.

No 1.º domingo de julho, a Paróquia culmina uma semana de programação festiva, com a Missa Campal, que reúne a comunidade inteira e uma grande procissão no final da tarde.

